abril.2019

A esperança de vida no Estado de São Paulo em 2018

Resumo: Análise dos óbitos ocorridos em 2018 dimensionou esperança de vida de 76,4 anos, para o Estado de São Paulo, e confirmou a tendência de decréscimo da mortalidade e aumento da sobrevivência de seus habitantes.

A comparação desse indicador com aqueles elaborados para períodos anteriores indica que, em relação ao ano 2000, houve acréscimo de 4,8 anos de vida média. Em relação a 1950 o avanço foi de 22,2 anos.

Entre 2000 e 2018 ocorreu importante redução da diferença entre a esperança de vida feminina e masculina, que passou de nove anos para 6,3 anos, em decorrência da maior queda da mortalidade masculina em relação à feminina. Já o índice de sobremortalidade masculina neste início de século se reduz sensivelmente entre os adultos jovens, sobretudo de 15 a 39 anos.

Os indicadores de sobrevivência da população idosa mostram os avanços ocorridos ao longo das décadas, mas também revelam diferenças expressivas ao se comparar com os melhores registros internacionais, deixando nítido um campo crucial para os próximos progressos na esperança de vida.

Palavras-chave: sobrevivência; esperança de vida; vida média; mortalidade; sobremortalidade masculina; causas de morte.

A esperança de vida ao nascer da população residente no Estado de São Paulo foi estimada em 76,4 anos, em 2018, tendo por base as estatísticas do Registro Civil elaboradas pela Fundação Seade.1 Correspondendo à média esperada de anos de vida de seus habitantes, a atualização desse indicador mostra que o avanço da longevidade da população paulista, registrado desde meados do século passado, se manteve.

Em relação ao início do século XXI, constata-se acréscimo de 4,8 anos de vida média, ou 3,2 meses por ano. Esse progresso, entretanto, ocorreu de forma diferenciada nesses 18 anos: entre 2000 e 2010 houve aumento médio anual de 4,1 meses, enquanto entre 2010 e 2018 o incremento foi a metade, ou seja, 2,1 meses a cada ano.

Considerando-se 1950, momento de rápido crescimento da população paulista e intenso declínio dos níveis de mortalidade, quando a esperança de vida era de 54,2 anos, houve avanço de 22,2 anos nesse indicador. Desta forma, entre 1950 e 2018, a população residente em São Paulo acrescentou em sua longevidade, em média, 3,9 meses a cada ano do calendário.

Esses ganhos para a população paulista refletem o declínio da mortalidade no período, em contexto de transição epidemiológica2 que caracterizou grande parte da população mundial. De acordo com dados das Nações Unidas, entre 1950-1955 e 2010-2015, a esperança de vida média global cresceu 23,8 anos, ou ganho médio anual de 4,7 meses.

Os avanços observados na duração média da vida foram importantes em grande parte do mundo, porém com ritmos diferenciados. As regiões economicamente mais desenvolvidas e de industrialização mais antiga se adiantaram no processo de redução dos níveis de mortalidade, enquanto as menos desenvolvidas, ou em desenvolvimento, conseguiram percorrer mais rapidamente grande parte do caminho que ainda as separava das demais, beneficiadas, fortemente, pelos progressos científicos e tecnológicos.

Aquelas regiões, com elevados índices de mortalidade e de incidência de causas de morte típicas do período anterior à transição epidemiológica, eliminaram progressivamente grande parte das causas evitáveis, sobretudo as doenças infecciosas e parasitárias. Diminuíram, assim, mais rapidamente os riscos de morte do que as regiões que já estavam em situação sanitária mais avançada, enfrentando o desafio de doenças com etiologia mais complexa e de mais difícil prevenção.

Isso explica porque, entre 1950-1955 e 2010-2015, o acréscimo médio anual na longevidade foi de 2,7 meses para as regiões mais desenvolvidas e de 5,5 meses para as menos desenvolvidas. Nas áreas em que o processo de transição demográfica3 estava em fase inicial e os níveis de mortalidade eram mais elevados, foram registrados os maiores ganhos em termos de esperança de vida. Na América do Norte, por exemplo, os ganhos foram, em média, de 2,1 meses, enquanto na América Latina foram de 4,6 meses. No Brasil, os indicadores das Nações Unidas mostram avanço similar à média global do período, com 23,8 anos de acréscimo na esperança de vida nacional.

As comparações internacionais, apesar das dificuldades impostas pelos dados em escala mundial, deixam visíveis as convergências em termos de progresso dos indicadores de duração da vida média, onde as regiões menos avançadas no processo de transição demográfica evoluem mais rapidamente, mas tendem a reduzir esse ritmo à medida que alcançam patamares mais elevados e próximos das áreas mais desenvolvidas.

Gráfico 1 – Esperança de vida ao nascer (e0)

Estado de São Paulo e países – 1940-2018

Fonte: Fundação Seade; The Human Mortality Database.
(1) Dados referentes ao ano de 2016.

O Gráfico 1 compara, em anos selecionados, a evolução da esperança de vida ao nascer no Estado de São Paulo e em países com os maiores índices, mostrando que a diferença entre os indicadores tem se reduzido ao longo do tempo. Em 1940, a diferença entre São Paulo e Suécia (maior nível de esperança de vida naquele ano) era de 21,4 anos. Já em 2018 essa diferença caiu para 7,8 em relação ao Japão (que passa a deter o maior nível). Vale destacar que o eixo dos avanços de longevidade se deslocou da Europa para a Ásia, onde o Japão vem liderando desde 1990.

Riscos de morte segundo a idade

A duração média de vida da população depende da distribuição dos riscos de morte ao longo de todas as faixas etárias.4 A diminuição desses riscos, em cada etapa da vida, reflete-se diretamente no aumento da sobrevivência e, portanto, no aumento da duração média de vida.

Os riscos de morte variam sensivelmente segundo a faixa etária dos indivíduos, atingindo menor valor próximo de dez anos de idade. A partir da puberdade, os riscos passam a aumentar progressivamente, geralmente em ritmo exponencial depois dos 30 anos. Esse padrão evolutivo, constatado em escala planetária, está relacionado ao processo de envelhecimento dos indivíduos, que varia entre populações distintas, no tempo e no espaço, modificando-se as dimensões e as relações entre faixas etárias, mas conservando a lógica intrínseca de ascensão contínua desses riscos. Cabe ressaltar que existem evidências empíricas da ocorrência de inflexão nessa tendência ascendente para os riscos nas idades extremas.5

O padrão da curva de riscos de morte segundo a idade, expressos em termos de probabilidades de morte, para o Estado de São Paulo em 2018, está representado em escala logarítmica no Gráfico 2.

Os valores de cada coluna do Gráfico 2 representam o risco de morrer dos residentes em São Paulo, em 2018, entre intervalos quinquenais de idade, que vão de 0 a 4 anos até 85 a 89 anos. Fica evidente que eles caem desde o nascimento até um valor mínimo no intervalo entre 5 e 10 anos de idade, passando a crescer rapidamente nas demais faixas etárias.

A partir de 35 anos, o risco de morte duplica a cada dez anos de vida. Assim, o risco estimado para essa idade, que é 8,5 por mil, atinge 17,9 por mil aos 45 anos. Já aos 55 anos esse risco passa a 40,9 por mil, que é 2,3 vezes maior que o do grupo anterior.

Gráfico 2 – Probabilidades de morte, por faixas etárias

Estado de São Paulo – 2018

Fonte: Fundação Seade.

Ao se comparar as etapas extremas da vida entre os residentes em São Paulo, em 2018, observa-se que o risco de uma criança com cinco anos morrer antes do décimo aniversário é de 0,9 por mil, enquanto o risco de um idoso de 80 anos não alcançar seu aniversário de 85 é de 325,1 por mil. Esses riscos já foram muito mais elevados no passado: em 1950, por exemplo, atingiam valores de 9,7 e 621,0 por mil, respectivamente.

Atualmente, o residente no Estado que atinge a idade de 15 anos apresenta risco de morrer em idade ativa, antes de completar 65 anos, correspondente a 174,2 por mil, que é inferior à metade do risco que um residente nessa mesma faixa etária tinha em 1950 (408,7 por mil).

O Gráfico 3 apresenta a comparação de curvas de sobrevivência6 para o Estado de São Paulo em vários momentos, entre 1940 e 2018, e para o Japão em 2016, país que é referência de nível elevado de sobrevivência.

Gráfico 3 – Sobrevivência, por idade

Estado de São Paulo e Japão – 1940-2018

Fonte: Fundação Seade; The Human Mortality Database.

Destaca-se na evolução histórica dessas curvas o aumento da sobrevivência em todas as idades, contribuindo para o acréscimo da duração da vida média da população residente em São Paulo.

A mortalidade das crianças que em 1940 dizimava a coorte de nascimentos em quase 25% antes de completar cinco anos de idade, reduziu-se drasticamente para 1,2% em 2018. No outro extremo da vida, a sobrevivência até 85 anos de idade em 1940 correspondia a menos de 3%, enquanto em 2018 os sobreviventes passaram a representar quase 35% da coorte inicial.

Assim, a maior sobrevivência decorrente da eliminação de mortes precoces, em todas as faixas etárias, resultou no aumento da duração média de vida no Estado de São Paulo. A sequência de curvas de sobrevivência, de 1940 até 2018, indica aproximação sucessiva das curvas ao eixo horizontal superior, resultando em progressiva horizontalidade do formato da curva com final cada vez mais inclinado em direção à extinção de toda a geração considerada no modelo.7

A curva do Japão está representada graficamente como referência de nível ainda mais elevado de sobrevivência, confirmando as tendências observadas no Estado e revelando a distância ainda a ser percorrida.

A evolução das curvas de sobrevivência deixa visível o grande impacto da redução histórica da mortalidade, sobretudo entre os mais jovens, contribuindo decisivamente para o acréscimo sistemático da esperança de vida no Estado.

Contribuição das faixas etárias para o aumento da esperança de vida ao nascer

Entre 2000 e 2018, a vida média no Estado de São Paulo aumentou ٤,8 anos, enquanto nos períodos anteriores de 1980-2000 e 1960-1980 os acréscimos foram de 4,9 e 5,5 anos. Embora esses incrementos sejam numericamente próximos, as contribuições desagregadas por faixa etária são diferenciadas e se alteram ao longo do tempo, como é possível observar no Gráfico 4.

Fica nítido que a faixa de menores de cinco anos foi a que mais contribuiu para o aumento da esperança de vida em todos os períodos, mas vai perdendo impacto em anos mais recentes à medida que os riscos de morte decrescem. No primeiro período analisado, a queda da mortalidade das crianças foi muito intensa e a contribuição para a vida média destaca-se do conjunto das demais idades. No segundo, a contribuição nessas idades continua impactando fortemente, enquanto a faixa de 15 a 34 anos apresenta contribuição negativa, retirando anos de vida média da população em decorrência do aumento dos riscos de morte desses jovens. No último período, o padrão se tornou mais homogêneo, com faixas etárias contribuindo com acréscimos aproximados.

Gráfico 4 – Contribuição das faixas etárias ao acréscimo da esperança de vida ao nascer

Estado de São Paulo – 1960-2018

Fonte: Fundação Seade.

A elevação da mortalidade dos jovens de 15 a 34 anos, entre 1980 e 2000, está estreitamente associada ao aumento das causas externas de morte (acidentes, agressões, etc.) que atingiu em maior grau a população masculina e ampliou os diferenciais por sexo. Entre 2000 e 2018, a incidência das causas externas diminui, reduzindo expressivamente os diferenciais de mortalidade entre homens e mulheres.

Índices de sobremortalidade masculina entre 2000 e 2018

O Gráfico 5 apresenta os riscos de morte masculinos e femininos e a razão entre eles, denominada índice de sobremortalidade masculina.8 Em 2018, os riscos de morte da população masculina eram superiores aos femininos em todas as faixas etárias, sendo mais elevado entre 20 e 24 anos de idade.

Gráfico 5 – Probabilidades de morte, por faixas etárias, segundo sexo e índice de sobremortalidade masculina

Estado de São Paulo – 2018

Fonte: Fundação Seade.

Entre 2000 e 2018, a diferença entre a esperança de vida feminina e masculina sofreu importante redução, passando de nove para 6,3 anos, em decorrência de queda maior da mortalidade na população masculina em relação à feminina. Essa evolução está diretamente associada às fortes transformações nos níveis de mortalidade por idade e sexo, delineando novo padrão nesses diferenciais.

Os índices de sobremortalidade masculina elaborados para 2018, comparados aos de 2000, mostram redução muito sensível entre os adultos jovens, sobretudo nas idades entre 15 e 39 anos. No início do século, a mortalidade masculina alcançava níveis mais de cinco vezes superiores à feminina na faixa etária de 20 a 24 anos, ocorrendo, na sequência, redução substancial nessas relações.

A sobremortalidade masculina está presente tanto nas causas de morte naturais, quanto nas externas, mas é nessas últimas que se verificam os indicadores mais expressivos. Assim, quando se eliminam as causas externas do conjunto dos óbitos (Gráfico 6), os índices reconstruídos para 2000 e 2018, reduzem-se drasticamente e aproximam-se entre si, demonstrando o grande impacto das causas de morte violentas sobre os diferenciais de mortalidade masculina e feminina, sobretudo entre os jovens.

Gráfico 6 – Índices de sobremortalidade masculina, por faixas etárias

Estado de São Paulo – 2000-2018

Fonte: Fundação Seade.

As causas naturais, por sua vez, apresentam diferenciais por sexo que atingem mais fortemente a população na faixa etária mais amadurecida, como se observa na curva representativa dos índices excluindo-se as causas externas.

O avanço da esperança de vida e as transformações verificadas nos padrões de mortalidade por faixas etárias, até 2018, manifestam as conquistas em termos de sobrevivência no decurso das principais etapas cronológicas do ciclo vital dos habitantes do Estado. A Tabela 1 apresenta um resumo das mudanças ocorridas na sobrevivência dos indivíduos em períodos significativos do transcurso da vida, em vários momentos entre 1940 e 2018.

Tabela 1 – Proporção de sobreviventes ao final dos intervalos de idade

Estado de São Paulo e Japão – 1940-2018

Em porcentagem
Intervalo
de idade
Estado de São Paulo Japão
1940 1960 1980 2000 2018 2016
0-20 anos 72,3 88,8 93,3 97,0 98,1 99,6
20-60 anos 60,9 75,3 79,7 81,9 88,3 94,8
20-40 anos 86,1 93,9 95,5 95,1 97,6 99,1
40-60 anos 70,7 80,2 83,5 86,1 90,5 95,7
60-80 anos 21,2 33,2 40,1 49,7 59,2 76,6
Fonte: Fundação Seade; The Human Mortality Database.

 

A proporção de sobreviventes desde o nascimento até 20 anos de idade passou de 72,3%, em 1940, para 98,1%, em 2018, situando-se próxima aos níveis registrados no Japão em 2016. Isto significa que o Estado de São Paulo conseguiu reduzir, em grande parte, as mortes precoces antes dos 20 anos de idade, preservando a geração de nascimentos originária e delineando sua força de trabalho potencial.

Entre 20 e 40 anos de idade, a sobrevivência ampliou sua proporção de 86,1%, em 1940, para 97,6%, em 2018, tendo como referência internacional o nível de 99,1%. Vale destacar que, entre 1980 e 2000, ocorreu diminuição na proporção de sobreviventes decorrente do aumento da mortalidade por causas externas, como já mencionado anteriormente. Entre 40 e 60 anos, a proporção de sobreviventes passa de 70,7% em 1940, para 90,5% em 2018. Completa-se, assim, grande parte do ciclo da vida em idade potencialmente ativa, em que a proporção de sobreviventes entre 20 e 60 anos alcançou 88,3% em 2018, contra 60,9% em 1940. A diferença com os níveis do Japão (94,8%) evidencia que ainda há distância a percorrer, mas em relação a 1940 as conquistas são impactantes.

Trata-se de nível de sobrevivência que possibilita o amadurecimento da população em idade ativa e maior estabilidade, sem as frequentes intercorrências por morbidade ou mortalidade do passado. Ao mesmo tempo, pode potencializar na etapa mais avançada da vida profissional uma perspectiva positiva do envelhecimento, ao valorizar o acúmulo de experiências profissionais.

Por fim, destaca-se o aumento da sobrevivência entre 60 e 80 anos. Em 1940, somente 21,2% das pessoas com 60 anos chegava aos 80, enquanto em 2018 essa proporção atingiu 59,2%. É nessa faixa etária que se observa a maior diferença com os níveis de sobrevivência mais elevados, como mostra a comparação com o Japão.

Crescem, assim, os desafios para se alcançar padrões internacionais mais elevados, sobretudo na população idosa que representa o espaço substancial para as próximas conquistas em termos de duração da vida média.

Sobrevivência e esperança de vida da população idosa

Os dados produzidos pelo Sistema de Estatísticas do Registro Civil da Fundação Seade também possibilitaram explorar a série histórica de indicadores de vida média em idades mais avançadas dos residentes no Estado de São Paulo e compará-la com a do Japão. Os resultados da análise mostram que a esperança de vida aos 60 e aos 80 anos aumentou continuamente e gradativamente entre 1970 e 2018 (Gráfico 7). Em 2018, um habitante em São Paulo de 60 anos tinha expectativa de viver, em média, 21,7 anos adicionais, enquanto um de 80 anos esperaria viver mais 8,5 anos. Já em 1970, os valores correspondentes foram 16,6 e 5,8 anos.

As estatísticas de causas de morte processadas pela Fundação Seade mostram as tendências decrescentes de vários grupos de doenças na população adulta/idosa e indicam que os acréscimos de vida média foram, em grande parte, determinados pela redução das mortes causadas pelas doenças do aparelho circulatório.9 Por outro lado, a comparação com a evolução da vida média do Japão revela que as expectativas de vida nessas idades se distanciaram sistematicamente ao longo do tempo.

Um tema de especial interesse na atual conjuntura, em que a reforma da previdência ganhou centralidade nos debates sobre o futuro do país, é a esperança de vida em idades mais avançadas. Vale destacar, a título de contribuição para esse debate, que em São Paulo mulheres de 62 anos e homens de 65 anos tinham, em 2018, esperança de vida de 21,8 e 16,1 anos, respectivamente. Isso significa que, caso contribuam por 40 anos para o Regime Geral de Previdência Social, regra que está sendo proposta para alcançar o teto do benefício, receberão aposentadoria por um prazo correspondente a 54,5% e 40,2% do período contributivo. Evidentemente, esses indicadores são valores médios de uma população heterogênea do ponto de vista da sobrevivência e, portanto, haverá habitantes que viverão mais e outros, socialmente mais vulneráveis, que morrerão próximo ao início da aposentadoria.

Gráfico 7 – Evolução da esperança de vida aos 60 e aos 80 anos

Estado de São Paulo – 1970-2018

Essas reflexões evidenciam a potencialidade das estatísticas do registro civil como sinalizador das principais tendências da dinâmica demográfica paulista e conexões com as políticas públicas.

Considerações finais

A análise do movimento do registro de óbitos de 2018 referente à população residente no Estado de São Paulo propiciou o dimensionamento de relevantes indicadores de mortalidade, em comparação com aqueles elaborados anteriormente e a atualização de tendências observadas. Nesse sentido, o indicador de esperança de vida de 76,4 anos, em 2018, confirma a tendência de aumento da sobrevivência de sua população.

As comparações com indicadores mais detalhados da série histórica deixam patente o grande impacto da queda da mortalidade infanto-juvenil sobre os padrões de sobrevivência das gerações, com o aumento crescente de jovens que atingem a idade para o trabalho. Esse fato é revelador das conquistas históricas em termos de proteção da vida de crianças e adolescentes nascidas no Estado, apesar de ainda persistirem desigualdades socioeconômicas marcantes no território paulista.

Nas idades potencialmente ativas também se registrou queda da mortalidade, determinada nas duas últimas décadas, em grande parte, pela redução das causas externas. As consequências são visíveis nos índices de sobrevivência dessa faixa etária e nos ganhos de vida média desse segmento populacional. Destaca-se, também, a maior sobrevivência entre os idosos, que reflete a tendência ascendente gradativa registrada desde 1940.

Em síntese, a passagem para um regime demográfico de baixa mortalidade no Estado de São Paulo preservou as coortes de nascimentos até o início da vida ativa, possibilitou o amadurecimento das gerações em idades ativas e estendeu a perspectiva do envelhecimento a um maior número de habitantes.

Embora a evolução da esperança de vida no Estado siga trajetória de aproximação aos níveis mais elevados observados internacionalmente, ainda persistem grandes desafios para a eliminação de mortes precoces que condicionam a vida média da população residente em São Paulo. Mais especificamente, os indicadores de sobrevivência da população idosa mostram os avanços ocorridos ao longo das décadas, mas também revelam diferenças expressivas ao se comparar com os melhores registros internacionais, deixando nítido um campo crucial para os próximos progressos na esperança de vida.

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Notas
1. Tradicionalmente, esses registros possibilitam o acompanhamento da mortalidade, da natalidade e de outras variáveis relevantes para a compreensão da dinâmica demográfica paulista.
2. Transição progressiva de um perfil de elevada mortalidade por doenças infecciosas, para outro em que predominam as mortes por doenças cardiovasculares, neoplasias e outras doenças crônico-degenerativas, além das causas externas. Esse conceito está diretamente associado ao nome de Omran (1971) que foi um dos primeiros a delinear sua estrutura teórica.
3. Trata-se de um modelo explicativo da evolução da população que contempla a passagem de um regime demográfico com elevadas taxas de mortalidade e de natalidade para um outro com baixas taxas durante o processo de desenvolvimento econômico e social.
4. A metodologia utilizada para o dimensionamento da esperança de vida considera a análise da sobrevivência, por sexo e idade, de uma coorte fictícia de nascimentos até a sua extinção total, submetida aos riscos de morte determinados empiricamente na população estudada em um momento específico. Trata-se de modelo analítico conhecido como tábua de vida ou tábua de mortalidade, onde as mortes e os sobreviventes são contabilizados por faixa etária, visando determinar a duração média de vida.
5. Pesquisa desenvolvida na Itália entre 2009 e 2015, mostrou que os riscos de morte a partir dos 105 anos de idade permaneceram praticamente constantes (BARBI et al., 2018).
6. As curvas correspondem à função de sobrevivência lx das tábuas de mortalidade de momento elaboradas para o Estado de São Paulo (Fundação Seade) e Japão (The Human Morta­lity Database).
7. Essa tendência, também conhecida como “retangularização” das curvas de sobrevivência, está associada ao conceito de “compressão da morbidade” apresentado por Fries (1980), um dos precursores dessa questão, que é central no debate atual sobre a mortalidade dos idosos.
8. A presença de níveis de mortalidade masculina superiores à feminina constitui fenômeno demográfico ocorrido na maioria dos países, inclusive nos mais desenvolvidos. A maior exposição da população masculina aos riscos de morte violenta, devida a acidentes de transporte, agressões e suicídios, e comportamentos sociais nocivos, como o uso de drogas, consolidam esses padrões diferenciais.
9. A redução do grupo de doenças do aparelho circulatório representou contribuição relevante para o aumento da esperança de vida, notadamente na faixa etária de 65-69 anos, conforme analisado em Ferreira e Castiñeiras (2015).
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